30 de out de 2009

A ARTE NA ESCOLA

O trabalho de Arte na escola encontra, atualmente, a sua referência nas diretrizes dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), cujos objetivos buscam objetivam levar as artes visuais, a dança, a música e o teatro para serem aprendidos na escola. Anteriormente, tais as atividades artísticas funcionavam apenas como procedimentos de recreação, equilíbrio psíquico, expressão criativa ou simplesmente treino de habilidades motoras. Mas a atual proposta pedagógica encabeçada pelos PCN denota a preocupação de apresentar a Arte como área de conhecimento que requer espaço e constância, como todas as áreas do currículo escolar.
Nessa proposta está imbuído o reconhecimento de que o aprendizado de Arte deve ser significativo para o aluno, de modo que ele possa estabelecer relações entre seus trabalhos artísticos individuais, em grupos e a produção social de arte. Isso significa que na escola é fundamental que o aluno tenha condições de apreciar e interpretar as produções artísticas produzidas culturalmente na sociedade em que ele vive.
O conhecimento da arte abre perspectivas para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a dimensão poética esteja presente: a arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, que é preciso mudar referências a cada momento, ser flexível. Isso quer dizer que criar e conhecer são indissociáveis e a flexibilidade é condição fundamental para aprender (MEC/SEF, 1998 p. 6).

Nas orientações dos PCN fica evidente a idéia de que educar arte significa fazer arte, fruir arte e contextualizá-la. Nesse sentido, cabe à escola a incumbência de proporcionar condições para os alunos apreciarem produções artísticas de diferentes épocas e artistas, relacionando-as com suas próprias produções bem como expressando opiniões que tornem possível compreender a realidade que o cerca.
Em muitas escolas ainda se utiliza, por exemplo, o desenho mimeografado com formas estereotipadas para as crianças colorirem ou se apresentam “musiquinhas” indicando ações para a rotina escolar (hora do lanche, hora da saída). Em outras, trabalha-se apenas com a auto-expressão; ou, ainda os professores estão ávidos por ensinar história da arte e levar os alunos a museus, teatros e apresentações musicais ou de dança. Há outras tantas possibilidades em que o professor polivalente inventa maneiras originais de trabalhar, munido apenas de sua própria iniciativa e pesquisa autodidata (MEC/SEF, 1998 p. 16).

De fato, o ensino de Arte na escola ainda se confronta com alguns impasses legadas do modelo tradicional de ensino. Muitos são os professores que ainda insistem em fazer do ensino da Arte uma atividade de “recreação” sem significado cognitivo, cujo valor está em apenas divertir a aula, fazendo com o que o aluno pinte ou desenhe modelos pré-definidos, como acontece no caso das atividades mimeografadas. Outros acreditam que o ensino da Arte serve para estimular a criatividade, deixando os alunos livres, sem orientação pedagógica precisa para a criação de produções artísticas significativas.
É preciso, contudo, reverter esse quadro no sentido de implantar no cotidiano escolar uma nova concepção do ensino de Arte, definindo-o como uma possibilidade de aprimorar o desenvolvimento das potencialidades do educando. Isso significa fazer do ensino da Arte uma prática sócio-educativa propícia para o desenvolvimento das habilidades de apreciar as produções artísticas de cunho sócio-cultural e histórico bem como para estimular a criação das próprias atividades artísticas, fazendo com que estas tenham sentido educativo para o aluno.
Assim sendo, é importante que as aulas de Artes possibilitem o trabalho com diferentes linguagens artísticas, buscando criar condições para que os alunos sejam capazes de:
· expressar e saber comunicar-se em artes mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fruir produções artísticas;
· interagir com materiais, instrumentos e procedimentos variados em artes (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), experimentando-os e conhecendo-os de modo a utilizá-los nos trabalhos pessoais;
· edificar uma relação de autoconfiança com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria produção e a dos colegas, no percurso de criação que abriga uma multiplicidade de procedimentos e soluções (MEC/SEF, 1998 p. 31).

É oportuno enfatizar que o ensino da Arte, na perspectiva proposta dos PCN, necessita se pautar no planejamento conciso de atividades que abranjam diferentes linguagens artísticas, tomando como referência às necessidades e aspirações dos alunos. Muito mais que fazer do ensino da Arte uma distração, é preciso enfocar o aspecto cognitivo propício à fruição das potencialidades do educando.
É clarividente que a aprendizagem depende em grande parte da motivação: as necessidades e os interesses da criança são mais importantes que qualquer outra razão para que ela se ligue a uma atividade. Ser esperta, independente, curiosa, ter iniciativa e confiança na sua capacidade de construir uma idéia própria sobre as coisas, assim como exprimir seu pensamento como convicção são características que fazem parte da personalidade integral da criança. Por conseqüência, o ensino de Arte precisa:
[...] acolher a diversidade do repertório cultural que a criança traz para a escola, a trabalhar com os produtos da comunidade na qual a escola está inserida e também que se introduza informações da produção social a partir de critérios de seleção adequados à participação do estudante na sociedade como cidadão informado (MEC/SEF, 1998 p. 30).

A valorização do ensino da Arte no âmbito escolar, promove na criança esse processo de aprendizagem que faz com que através de brincadeiras a criança desenvolva o entrosamento com a turma, oferecendo-lhe subsídios para vencer dificuldades que apresentam, reforçando a auto-estima, respeitando a individualidade e as limitações
É fundamental tomar consciência de que a atividade artística fornece informações elementares a respeito da criança: suas emoções, a forma como interagem com seus colegas, seu desempenho físico-motor, seu estágio de desenvolvimento, seu nível lingüístico, sua formação moral. A aprendizagem da criança só terá bom desempenho, entretanto, se estiver acompanhada de uma proposta educativa coerente.
Tomando como referência às diretrizes propostas pelos PCNs verifica-se uma tendência para organizar o processo de ensino-aprendizagem de Arte a partir da inter-relação entre as diversas linguagens artísticas. Assim, preocupa-se em enfocar atividades de teatro, música, dança e artes visuais levando em conta uma variedade de temas e um respeito crescente pela diversidade cultural.
A respeito da distribuição das modalidades do ensino de Arte nos currículos, encontramos no PCN:
Um bom planejamento precisa garantir a cada modalidade artística no mínimo duas aulas semanais, em seqüência, a cada ano [...] Por exemplo, se Artes Visuais e Teatro forem eleitos respectivamente na primeira e segunda séries, as demais formas de arte poderão ser abordadas em alguns projetos interdisciplinares, em visitas a espetáculos, apresentações ou apreciação de reproduções e vídeos, pôsteres, etc. A mesma escola trabalhará com Dança e Música nas terceira e quarta séries, invertendo a opção pelos projetos interdisciplinares (MEC/SEF, 1998 p. 108).

Em contrapartida, é útil considerar que o trabalho com as linguagens artísticas deve ser priorizado em todas as modalidades da educação básica, inclusive no atendimento de alunos portadores de necessidades especiais. A opção por trabalhar com artes visuais, música, dança ou teatro depende muito do critério da organização do processo de ensino-aprendizagem pelo professor. Por conseqüência, é imprescindível que este tenha conhecimento de todas as linguagens artísticas a fim de saber integrá-las em comum acordo com as necessidades dos alunos.
No trabalho com Artes Visuais, é relevante que o professor reconheça que esta linguagem artística compreende:
[...] além das formas tradicionais (pintura, escultura, desenho, gravura, arquitetura, artefato, desenho industrial), incluem outras modalidades que resultam dos avanços tecnológicos e transformações estéticas a partir da modernidade (fotografia, artes gráficas, cinema, televisão, vídeo, computação, performance). Cada uma dessas visualidades é utilizada de modo particular e em várias possibilidades de combinações entre imagens, por intermédio das quais os alunos podem expressar-se e comunicar-se entre si de diferentes maneiras (MEC/SEF, 1998 p. 35).

O trabalho com a categoria Arte Visual pressupõe o domínio do conhecimento e leitura os elementos visuais, dentre os quais, ressalta-se a forma, a cor, o espaço bidimensional e tridimensional, o equilíbrio, o plano, as relações entre luz e sombra, a superfície, dentre outros elementos que compõem as manifestações visuais. Entretanto, convém destacar que mesmo que o educador não tenha conhecimentos específicos de Arte, compete-lhe o reconhecimento de que qualquer pessoa possui potencialidades criativas para pintar, desenhar ou criar uma escultura.
O principal aspecto que orienta o trabalho com Artes Visuais encontra-se na capacidade do professor saber selecionar atividades estimulantes que mobilizem os alunos na criação e apreciação de produções artísticas diversas, desenvolvendo a sensibilidade estética-visual.
A linguagem Dança é muito presente no cotidiano das pessoas, ela possibilita a expressão através do corpo, sendo fácil de ser trabalhada, mas que também merece cuidados no planejamento do professor.
A atividade de dança na escola pode desenvolver na criança a compreensão de sua capacidade de movimento, através de um maior entendimento de como seu corpo funciona. Assim, poderá usá-lo expressivamente com maior inteligência, autonomia, responsabilidade, e sensibilidade (MEC/SEF, 1998 p. 39).

A dança é uma forma de comunicação que expressa compreensões individuais e sociais do mundo. Nessa linha de pensamento, é essencial que o professor desenvolva atividades diversificadas que estimulando a descoberta do próprio corpo como forma de expressão. Na escola é útil trabalhar com atividade de dança no sentido de que estas possibilitam ao educando perceber o ritmo musical bem como compreender noções de espaço temporal e coreografias e dramatizações criativas.
Nesse sentido, a Dança articula as outras duas linguagens artísticas – a música e ao teatro. A Música é outra linguagem extremamente marcante na vida do educando, constituindo-se em uma importante ferramenta de aprendizagem não só para a formação da percepção estética, mas também para o desenvolvimento das competências discursivas.
Para que a aprendizagem da música possa ser fundamental na formação de cidadãos é necessário que todos tenham a oportunidade de participar ativamente como ouvintes, intérpretes, compositores e improvisadores, dentro e fora da sala de aula. Envolvendo pessoas de fora no enriquecimento do ensino e promovendo interação com os grupos musicais e artísticos das localidades, a escola pode contribuir para que os alunos se tornem ouvintes sensíveis, amadores talentosos ou músicos profissionais. Incentivando a participação em shows, festivais, concertos, eventos da cultura popular e outras manifestações musicais, ela pode proporcionar condições para uma apreciação rica e ampla onde o aluno aprenda a valorizar os momentos importantes em que a música se inscreve no tempo e na história (MEC/SEF, 1998 p. 46).

Uma linguagem artística importante e que merece atenção especial do educador é o Teatro. Os jogos teatrais são muito ricos para o desenvolvimento do educando na medida em que possibilitam não só a expressão por meio da interação das outras linguagens artísticas, mas também aproxima o educando da sua realidade, permitindo-lhe criar através dos personagens a representação de papéis significativos a sua vida social.
O jogo teatral, neste sentido, surge como possibilidade íntegra de criação e recriação de expressões significativas de vida.
Dramatizar não é somente uma realização de necessidade individual na interação simbólica com a realidade, proporcionando condições para um crescimento pessoal, mas uma atividade coletiva em que a expressão individual é acolhida. Ao participar de atividades teatrais, o indivíduo tem a oportunidade de se desenvolver dentro de um determinado grupo social de maneira responsável, legitimando os seus direitos dentro desse contexto, estabelecendo relações entre o individual e o coletivo, aprendendo a ouvir, a acolher e a ordenar opiniões, respeitando as diferentes manifestações, com a finalidade de organizar a expressão de um grupo (MEC/SEF, 1998 p. 49).

Para promover um trabalho efetivo com as linguagens artísticas é importante que o professor use toda sua criatividade para explorar os vários objetivos do ensino de Arte, indicados nos PCNs, de maneira lúdica e divertida.
Para tanto, é importante que o professor reconheça que os portais de abertura da criatividade são infinitos e que o ser humano é rico em potencialidades criadoras, sendo que o estímulo para a criação depende do planejamento de atividades contextualizadas. Cabe ao educador ficar atento a todas as reações dos educandos em processo de trabalho criativo, pois essas reações servem como guias valiosos para os próximos passos do processo de estimulação no ensino da Arte. Com o despertar da criatividade, novas linhas de raciocínio são criadas, novas respostas, novas buscas e, portanto é preciso que o aluno tenha condições de criar e recriar na medida em que se inter-relaciona com os colegas e com o próprio educador no processo de ensino-aprendizagem de Arte.
É importante que o professor se exercite constantemente na tarefa de refletir sobre o seu papel como educador para não cair na tentação de afirmar que um aluno é incapaz de aprender ou que não gosta de Arte. Portanto, o educador de Arte não é somente aquele que enfeita as festas da escola, mas é o mediador na construção de conhecimentos, atuando como dinamizador de oportunidades estimuladoras ao desenvolvimento do potencial criador e estético do educando.

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