30 de out de 2009

A ALFABETIZAÇÃO CONTEXTUALIZADA NA FAMÍLIA: a indisciplina na escola

A ALFABETIZAÇÃO CONTEXTUALIZADA NA FAMÍLIA: a indisciplina na escola

Por: Vanderli Cássia Spredemann

RESUMO
O presente trabalho tem por finalidade discutir a alfabetização contextualizada na família, abordando a importância da família para dar sustentação e alicerçar a formação educativa na fase da alfabetização. O objetivo principal deste trabalho é distinguir os modelos teóricos que delineiam o conceito de disciplina, interferindo na forma de conduta que pais, alunos e professores assumem diante do processo escolar. Para tanto, busca-se refletir sobre as concepções pedagógicas tradicionais e modernas que condicionam os julgamentos sobre a conduta da criança e do adolescente dentro da família e da escola, procurando perceber o efeito das regras disciplinadoras nas relações entre pais e filhos e professores e alunos.

Palavras-chaves: alfabetização, família, limites.

Introdução
A falta de limite e a ausência da família na educação dos filhos refletem cada vez mais em sua formação educacional. É imprescindível, pois, considerar que a indisciplina é um sintoma da desestruturação familiar na sociedade moderna, mostrando como o ambiente familiar exerce influência preponderante no comportamento dos alunos na escola, prejudicando inclusive a relação professor e aluno. De modo semelhante é fundamental compreender que a indisciplina na escola tem relação imediata com todos os elementos envolvidos com a prática escolar, podendo ser concebida como um problema que prejudica um processo pedagógico coerente e eficaz, encontrando-se profundamente relacionada à forma como a escola organiza e desenvolve seu trabalho.
Portanto, o presente artigo tem por objetivo refletir sobre a indisciplina e a relação família x escola na construção da identidade cidadã de crianças e adolescentes, fazendo um panorama diante da responsabilidade da família sobre o comportamento do educando, e o papel do professor.



DESENVOLVIMENTO
A problemática da disciplina vive um momento de fragilidade em que as abordagens psicológicas tendem a ser encaradas ou com repúdio demais – autoritarismo – ou com aceitação abusiva – permissividade. Assim, quando se trata de educar com responsabilidade crianças e adolescentes os adultos – pais e professores – hesitam no caminho a seguir, não sabem como agir.
Na educação, as respostas derivadas da chamada Escola Nova, da Teoria da Não-diretividade, de Carl Rogers, da Psicanálise, das teorias das relações humanas, entre outras, trouxeram, todas elas, maior possibilidade de diálogo. Trouxeram, sem dúvida, mais compreensão, maior conhecimento das necessidades da criança em suas diferentes fases de desenvolvimento e, portanto, menos autoritarismo na relação entre pais e filhos, bem como professores e alunos. Nenhuma delas pretendia incentivar, porém – é importante ressaltar -, a falta ou ausência de autoridade na relação pais – filhos (ZAGURY, 1998, p.19-20).

A educação moderna trouxe, certamente, novas concepções para as relações pedagógicas, mas também contribuiu para gerar um clima de confusão. As teorias psicológicas que deveriam contribuir para a abertura ao diálogo nas relações acabou por instaurar um clima de insegurança. Receosos, os pais parecem verificar cada vez mais que o modelo autoritário não resulta bons comportamentos, mas a direção que por vezes seguem é feita de silêncios, ambigüidades e falta de convicção.
Partindo desse pressuposto, o conceito de disciplina associava-se a idéia de impor limites aos comportamentos do homem, sobretudo, no meio social. Entretanto, com as idéias liberais tal conceito fragmenta-se dando um novo sentido à liberdade na relação pais-filhos e professor-aluno.
Na sua ambigüidade, a indisciplina expressa uma forma de interromper as pretensões do controle homogeneizador imposto pela escola ou pela família. Tanto nas brigas (envolvendo pais e filhos ou alunos e professores) como nas brincadeiras, existe uma duplicidade que, ao garantir a expressão de forças heterogêneas, asseguram a coesão dos alunos, pois eles passam a partilhar de emoções que fundam o sentimento da vida coletiva.
O conceito de indisciplina se relaciona, então, com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade. Na escola e na família, entretanto, a disciplina parece ser vista como obediência cega a um conjunto de prescrições. Dentro dessa visão, as regras são imprescindíveis ao ajustamento, controle e coerção da criança e do adolescente, mas na escola a visão que predomina é aquela que considera qualquer manifestação de inquietação, questionamento, conversa ou desatenção por parte dos alunos como indisciplina.
Sentir limites é para a criança uma questão de segurança – uma necessidade básica. Não estabelecer limites é uma opção que um pai pode fazer. Mas é importante que, se o fizer, o faça sabendo que, ao contrário do que possa parecer, é também através dos limites que a criança percebe que alguém se preocupa com ela e a protege. O limite faz com que ela perceba também que esse alguém é um alguém forte, que sabe e tem segurança do que faz. Além disso, se nos mostrarmos inteiros, com direitos, também nos revelamos aos nossos filhos como seres humanos, exatamente como lhes mostramos que eles são. Somente com direitos e deveres de ambas as partes é que se poderá construir uma relação equilibrada, saudável e democrática (ZAGURY, 1998, p. 31).

Pais e professores democráticos parecem conseguir um maior equilíbrio entre a necessidade de controlar e dirigir as ações infantis, de exigir seu amadurecimento e independência. Essas relações apresentam alto nível de comunicação e afetividade, distinguindo-se da postura rígida e controladora das relações autoritárias bem como de uma educação permissiva, tão prejudicial quanto os efeitos de uma educação severa e autoritária.
Nesse contexto de transformação relacional, o conceito de disciplina associa-se a uma indefinição axiológica da parte do professor tanto quanto dos pais. Isto porque a família a escuta e acostumada com a autoridade e o autoritarismo, sofrem uma relativa instabilidade no que se refere à educação das crianças. As correntes idéias da prática da liberdade e da responsabilidade exige da parte do professor competências técnicas e relacionais que a escola tradicional não exigia. Os pais também não sabem como agir.
É oportuno assinalar que a escola, como qualquer outra instituição, está planificada para que as pessoas sejam todas iguais. Mas esse fator de homogeneização exerce-se por mecanismos disciplinares, contribuindo à imposição de uma atitude de submissão e docilidade. As escolas são contextos demasiado complexos, assumem-se como espaços de mediação social e instrumental a não desprezar quando abordamos os comportamentos daqueles que os percorrem.
Neste sentido, quer os comportamentos destrutivos quer os comportamentos assertivos deverão deixar de ser entendidos como fenômenos individuais para serem compreendidos como fenômenos organizacionais. Entende-se, então, que o problema da disciplina nas escolas implica, hoje, a discussão e a reflexão constantes acerca do sentido, das possibilidades e das limitações dos projetos de intervenção educativa que aí têm lugar. Não se confunda deliberada ou ingenuamente comportamentos delinqüentes com comportamentos irreverentes que implicam intervenções necessariamente diferenciadas no âmbito dos contextos educativos. Compreende-se que as transformações globais das sociedades contemporâneas são irreversíveis e que as escolas, a exemplo de outras instâncias e organizações, não poderiam ser imunes às mesmas.
A família desempenha função vital na aprendizagem da criança, isto porque os desejos que os pais revelam sobre o seu futuro são determinantes no rendimento escolar. Pais atentos que desejam o melhor para seus filhos incentivam os na escola, mas pais desatentos chegam a pensar que são os professores responsáveis pela educação integral de seus filhos.
Além disso, os pais e professores ficam confusos e inseguros frente as novas correntes pedagógicas. Não sabem agir por outra via que não o autoritarismo, a permissividade ou a abstenção de responsabilidades. O importante é reconhecer que a família tem influência preponderante no aprendizado escolar, mas não se deve adotar posições extremas para isentar a família de sua função na escola ou de atribuir a ela toda a responsabilidade pelo desempenho escolar do aluno. Pelo contrário, urge conscientizar-se de que a família e a escola precisam cooperar no processo de formação educativa da criança.
O envolvimento dos pais no desenvolvimento dos filhos é muito importante não só porque desperta a responsabilidade da família na escola, mas também porque preocupa-se com uma postura mais centrada na criança. Ao contrário de tomar atitudes autoritárias, os pais precisam dedicar tempo a atividades conjuntas com a criança, tornando o ambiente educativo propício à convivência de valores significativos a conduta disciplinar da criança.
Importa enfatizar que o envolvimento dos pais contribui para melhorar o desempenho escolar das crianças, viabilizando o desenvolvimento cognitivo e melhor ajustamento em sala de aula. Em contrapartida, a escola também precisa se reorganizar, pois o modelo que prevalece é ainda de uma escola meritocrática, classificatória que, se não exclui por meio de reprovações, exclui por uma aprendizagem que não ocorre ou até mesmo impede a participação dos pais. É preciso transformar a vida da aula e da escola, de modo que se possam vivenciar práticas sociais e intercâmbios que conduzam à solidariedade, à colaboração, à experimentação compartilhada, assim como a outro tipo de relações com o conhecimento e a cultura que estimulem a busca, a comparação, a crítica, a iniciativa e a criação.
Esta investigação tem por objetivo identificar e analisar, no âmbito da rede oficial de ensino do município de Formosa-GO, que está espaço está sendo destinado à questão da disciplina nas séries iniciais dentro do contexto da família e da escola.
Para isso, fez-se necessário assinalar os fatores que vêm influenciando a relação professor-aluno e aluno-aluno dentro da sala de aula de modo a comprometer o processo pedagógico com o aparecimento de comportamentos indisciplinados. Pretende-se, com isso, compreender as causas e os efeitos da disciplina na sala de aula, conclamando propostas e abordagens teóricas que possibilitem reduzir o impacto negativo dos atos indisciplinados no rendimento escolar dos alunos de 1ª a 4ª série.
A importância deste estudo está na busca dos limites na relação entre pais e filhos e professores e alunos para equacionar o problema da indisciplina, visto que desde cedo as crianças precisam conviver em relações respectivas e harmoniosas, mas que também favoreçam o reconhecimento das regras, normas e valores no desenvolvimento de condutas autodisciplinas e responsáveis.

CONCLUSÃO
A essência da interação família-escola expressa-se, então, no reconhecimento da importância da convivência dos pais na educação dos filhos, no compartilhamento das atividades estimuladoras do desenvolvimento cognitivo, físico, emocional e social da criança. No entanto, são muitos os obstáculos, de natureza cultural e socioeconômica, para que a prática da integração família-escola se consolide. O perfil da família está mudando, predominando cada vez mais a pequena família nuclear, com menos filhos, avós e tios distantes, pais e mães trabalhando fora. Com muita freqüência, falta um dos genitores, ou se trata de uniões refeitas, em que o relacionamento com as crianças precisa ser reelaborado, gerando muitas vezes tensões e conflitos.
O resultado do problema da indisciplina será um excesso de democracia que levou a isto? Não. A responsabilidade é dos pais, da escola e do professor. Todos têm responsabilidade na formação da conduta da criança, cabe a escola e a família impor limites sem restringir ou extrapolar demais o controle disciplinar. Os pais, porque se encheram de medo de causar traumas e não sei o que mais, e se esquecem de traçar limites, obrigações e princípios de comportamento, talvez para não ficarem cansados com os filhos. Para eles os filhos são uns anjinhos, bonitinhos, certinhos, incapazes de traquinagens e de coisas piores. Errados, para eles, são a escola, os professores, os outros.
Soluções para os chamados problemas de "indisciplina" deverão basear-se, portanto, numa análise exaustiva da situação, na reflexão, no diálogo e em técnicas que capacitem os alunos para o autocontrole e a responsabilidade por sua conduta. Para isso, contudo, é necessário que a sala de aula se firme enquanto espaço público, lugar de reprodução das realizações coletivas e exercício permanente de si próprio. O primeiro passo à autodisciplina é certamente a valorização da autonomia e da co-responsabilidade entre alunos e professores e essa tarefa não é tão fácil quanto parece.
Negociando significados, acolhendo o que o aluno traz, estabelecendo com ele um diálogo efetivo. Só através dessa negociação com os alunos o professor confere sentido ao que ensina e induz à autodisciplina. É imprescindível, pois, privilegiar na educação as formas de convivência social: a comunicação, a interação, o respeito pela diferença e pluralidade, as decisões em grupo, a solidariedade e a justiça social a fim de que as crianças encontrem condições significativas para aprender agir segundo valores morais, éticos e sociais responsáveis e conscientes de suas limitações.
Portanto, o papel da educação, assim, é o de se esforçar para disciplinar o aluno e inculcar-lhe regras de conduta. A pedagogia tradicional, de um lado, desvaloriza o aluno e, de outro supervaloriza o professor, concebido como detentor único dos conhecimentos, concebido sob uma forma ideal de sábio.

REFERÊNCIAS
AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996.
ESTRELA, Maria Teresa. Relação Pedagógica, Disciplina e Indisciplina na Aula. 3. ed. Porto Codex – Portugal: Porto, 1998. (Coleção Ciências da Educação).

KAMLOT, Eliane. Família, desejo e aprendizagem. Psicopedagogia - Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia. São Paulo, 16(40): 28-34, 1997.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública. A pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985.

MATURANO, Edna. Ambiente familiar e aprendizagem escolar. Psicopedagogia - Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia. São Paulo, 16(48): 21-26, 1999.

ROURE, Susie Amâncio Gonçalves de. Concepções de Indisciplina Escolar e Limites do Psicologismo na Educação. Programa de Mestrado em Educação Brasileira UFG, dez. 2000.

SAVIANI, Demerval. Escola e Democracia: teorias da educação; curvatura da vara; onze teses sobre educação e política. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1983.

ZAGURY, Tânia. Relação Professor/Aluno, Disciplina e Saber. Pátio Revista Pedagógica. Porto Alegre – RS, 2(8):9-12, fev. 1999.

_____. Sem padecer no Paraíso: em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos. Record , 1998.



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